Explorar o universo da escrita através dos depoimentos de grandes escritores é uma experiência de reflexão, que nos instiga a pensar, ou repensar, nosso próprio processo de escrita e, conseqüentemente, nos permite desmistificar antigos paradigmas.
A leitura dos depoimentos de escritores do livro Como Escrevo?, de José Domingues de Brito, do livro A louca da casa, de Rosa Monteiro, e do texto A Filosofia da Composição me incitou a refletir sobre o motivo que levava tais escritores a escrever, ou não escrever, sobre seu processo de escrita.
No texto A Filosofia da Composição, Edgar Allan Poe comenta:
“Muitos escritores, especialmente os poetas, preferem deixar que acreditemos que escrevem graças a uma espécie de sutil frenesi ou de intuição extática; teriam verdadeiros calafrios se tivessem que permitir ao publico dar uma olhadela por trás da cortina, para contemplar os trabalhos e vacilantes embriões de pensamentos [...] Quanto a mim, não compartilho com a repugnância do que acabo de falar, nem encontro a menor dificuldade em recordar a marcha progressiva de todas as minhas composições.”
Observei que estes motivos podem não só variar de um escritor para outro, como podem ser de origem tanto emocional quanto racional. No entanto, a investigação de tais processos é que nos possibilita uma nova visão do ato de escrever.
Retomando questões abordadas em nossa aula de Psicologia a respeito da existência humana, comecei a fazer um paralelo entre o ser humano e o ser escritor, uma vez que considero que ambos buscam conhecer e compreender o sentido do ser. “Aos homens não basta saber que existem, mas para quê existem” (Viktor Frankl). Assim como o ser humano passa quase que toda a sua vida buscando respostas sobre sua existência, me questionei se o escritor, através do ato de escrever sobre a escrita (uma questão que o sensibiliza), também busque suas respostas.
Em seu livro A louca da casa, Rosa Monteiro comenta:
“Eu também senti a furiosa chamada dessa pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar da literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência.”(pag.9)
Tais respostas, assim como as da existência humana, talvez nunca sejam alcançadas, porem essa constante busca por adquiri-las acaba por aproximar, cada vez mais, o escritor de seu texto e, conseqüentemente, de si mesmo; fazendo com que muitas vezes sua obra se misture com sua própria existência. O ato de compreender a escrita, um ato propriamente humano, acaba por responsabilizar o escritor por sua própria existência.
“A autoria da vida requer pensamento, requer reflexão. (...) Todos somos autores da nossa vida, mas nem sempre podemos ter sua autoria. O pensar (e o escrever) favorece a autoria da existência.” (CRITELLI, Dulce. O ofício de pensar. In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p.82)
quarta-feira, 31 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
ALGO MAIS
Escrever um texto que relacionasse meu processo de leitura do poema O corvo, de Edgard Allan Poe, com o texto A filosofia da composição, de mesmo autor, não foi uma tarefa fácil. Para auxiliar minha reflexão, resolvi relembrar o processo desde seu início.
Tudo começou com as leituras, nada produtivas, da biografia do autor e de seu poema. Em seguida, relatei o quanto conturbado havia sido meu processo de leitura e fui questionada de como deveria proceder quando minha leitura se realizava desta maneira e o que fazer para realizar uma boa leitura. A primeira resposta que veio a minha mente foi a de que deveria estar em um ambiente silencioso, que permitisse minha concentração e, conseqüentemente, minha compreensão do texto.
Em seguida, foi solicitada a leitura do texto A filosofia da composição, no qual o autor compartilha com seus leitores o desenrolar de seu processo de elaboração do poema O corvo. Esta leitura me surpreendeu, pois não imaginava que por traz deste poema, que havia considerado como romântico, poderia haver um processo tão racional, meticulosamente calculado, e de forma tão dissociada emocionalmente por parte do autor.
Ao final, refleti sobre meu processo de leitura e percebi o quanto estava errada em acreditar que somente um ambiente silencioso bastaria para ter uma boa compreensão do poema lido. Era preciso algo mais, como informações e leituras adicionais à leitura do poema. Talvez este seja o motivo da escolha deste poema para estudo. Acredito que este se destaque entre os demais de sua época por possuir uma explicação, por parte do autor, de seu processo; permitindo assim uma melhor compreensão. Considero que a falta destas informações pode, além de dificultar a compreensão, vir a causar falsas impressões a respeito do texto.
Tudo começou com as leituras, nada produtivas, da biografia do autor e de seu poema. Em seguida, relatei o quanto conturbado havia sido meu processo de leitura e fui questionada de como deveria proceder quando minha leitura se realizava desta maneira e o que fazer para realizar uma boa leitura. A primeira resposta que veio a minha mente foi a de que deveria estar em um ambiente silencioso, que permitisse minha concentração e, conseqüentemente, minha compreensão do texto.
Em seguida, foi solicitada a leitura do texto A filosofia da composição, no qual o autor compartilha com seus leitores o desenrolar de seu processo de elaboração do poema O corvo. Esta leitura me surpreendeu, pois não imaginava que por traz deste poema, que havia considerado como romântico, poderia haver um processo tão racional, meticulosamente calculado, e de forma tão dissociada emocionalmente por parte do autor.
Ao final, refleti sobre meu processo de leitura e percebi o quanto estava errada em acreditar que somente um ambiente silencioso bastaria para ter uma boa compreensão do poema lido. Era preciso algo mais, como informações e leituras adicionais à leitura do poema. Talvez este seja o motivo da escolha deste poema para estudo. Acredito que este se destaque entre os demais de sua época por possuir uma explicação, por parte do autor, de seu processo; permitindo assim uma melhor compreensão. Considero que a falta destas informações pode, além de dificultar a compreensão, vir a causar falsas impressões a respeito do texto.
terça-feira, 16 de março de 2010
RITUAL DE ESCRITA
Nunca pensei que teria um ritual de escrita, mas depois de ler o livro Como escrevo? de José Domingo de Brito, e de refletir um pouco sobre o modo como produzi minhas postagens, percebi que havia algo em comum entre elas.
Meu ritual começa quando estou dirigindo de volta para minha casa após deixar minhas filhas na escola. Fecho os vidros do carro, ligo o ar condicionado e desligo o radio, abafando o som externo e me isolando do mundo lá fora. Então penso em um tema e começo a redigir um texto mentalmente. Quando o transito pára, anoto frases e algumas palavras em um bloco que deixo no banco ao lado. Durante esse percurso, que dura de trinta a quarenta minutos, faço meu rascunho inicial. Ao chegar em casa, sento na varanda, com meu rascunho, um bloco de papel, lápis e borracha; e começo a organizar minhas idéias e, conseqüentemente, o texto. Esta parte do processo é a mais penosa e carece de muito empenho para que o produto final fique de acordo com o esperado. Ao final, escrevo meu texto a mão livre e só passo para o computador quando este já está praticamente pronto.
Meu ritual começa quando estou dirigindo de volta para minha casa após deixar minhas filhas na escola. Fecho os vidros do carro, ligo o ar condicionado e desligo o radio, abafando o som externo e me isolando do mundo lá fora. Então penso em um tema e começo a redigir um texto mentalmente. Quando o transito pára, anoto frases e algumas palavras em um bloco que deixo no banco ao lado. Durante esse percurso, que dura de trinta a quarenta minutos, faço meu rascunho inicial. Ao chegar em casa, sento na varanda, com meu rascunho, um bloco de papel, lápis e borracha; e começo a organizar minhas idéias e, conseqüentemente, o texto. Esta parte do processo é a mais penosa e carece de muito empenho para que o produto final fique de acordo com o esperado. Ao final, escrevo meu texto a mão livre e só passo para o computador quando este já está praticamente pronto.
sábado, 13 de março de 2010
O CORVO, DE EDGARD ALLAN POE
Antes de começar a leitura do poema O corvo, de Edgard Allan Poe, pesquisei sobre sua vida e obra no Wikipédia. Durante esta leitura, um tanto quanto conturbada, minha atenção ficou ziguezagueando entre o conteúdo do texto e o das conversas paralelas na sala de aula. Apesar de pouco absorver, deixei a internet de lado e dediquei-me a leitura do poema. Iniciei lendo o título e, por parecer algo relacionado à morte, não me agradou muito. Notei que a tradução era de Fernando Pessoa, mas não dei muita importância e segui a leitura do poema. As conversas paralelas, assim como o barulho da digitação, se intensificaram e continuaram roubando minha atenção, dificultando minha compreensão. Então decidi ler cada verso duas vezes para ter certeza de que não estava lendo alguma palavra de forma errada. A palavra umbrais apareceu varias vezes e voltei a lembrar-me da morte. Notei também palavras estranhas, como qu’ria e desp’rança, que me remeteram ao tradutor e ao português de Portugal. Imaginei que talvez fosse este o motivo de minha dificuldade em entender. Na sexta estrofe quando ele fala do som do vento batendo na janela lembrei-me de cenas do filme O morro dos ventos Uivantes (1939). Adoro esse filme! Por fim confesso que apesar de terminar minha leitura, pouco compreendi.
sexta-feira, 12 de março de 2010
CAMINHOS TORTUOSOS
Separei os textos e sentei na varanda para começar a ler. Li primeiro o nome dos autores e logo me lembrei daquele poema complicado do João Cabral de Mello Neto que lemos em classe, então achei melhor começar pelos textos da Raquel de Queiroz. Optei por começar com o texto Escrever e deixar para o final o texto A "inspiração" não vem para todos, que me despertou mais curiosidade. Durante a leitura, e sem me dar conta, comecei a pinçar algumas palavras que, ao mesmo tempo, chamavam minha atenção e me distanciavam da leitura. Palavras como: talento, imaginação, pais letrados, cantor, Vinicius de Moraes, timidez, orador, inspiração etc. Com estas palavras, e a inexplicável conexão que minha mente fez entre elas, lembrei-me de Chico Buarque de Holanda. Comecei então a imaginar como seria o relacionamento entre ele e seu pai historiador... Quando e como foi que ele descobriu que gostava de escrever e de compor... Lembrei da poesia em suas músicas... Então parei! Parei porque percebi que havia me distanciado de minha leitura e do objetivo de compreender os textos. Quais textos? Foi quando me dei conta dos caminhos tortuosos por onde minha mente vagava enquanto eu lia. Era como se existissem dois textos simultâneos em minha mente, o que estava lendo e o que estava imaginando.
terça-feira, 9 de março de 2010
DOM DA ESCRITA
Será possível não recebermos um determinado talento, como o da escrita? As primeiras informações que temos a respeito das habilidades humanas têm sua origem na bíblia (Matheus, 25) e não faz nenhuma menção de que haja algum ser humano que não seja agraciado com um dom. Contudo nota-se que pode haver uma variação, no grau e intensidade, que este se apresenta para cada indivíduo e cuja descoberta e aprimoramento dependem do empenho de cada um.
Ao longo de nossas vidas, a forma com que nos relacionarmos com este talento pode apresentar certa inconstância. Há casos em que se possui o dom, mas este permanece adormecido e talvez nunca venha a despertar. Outros em que se permite aflorar, mas não se cultiva, por falta de incentivo ou de confiança, e até deixa-se podar. Por fim, mas raramente, pode se apresentar uma habilidade extraordinária, com força e intensidade avassaladoras, acabando por fazer com que estes indivíduos se destaquem entre os demais.
Portanto, independente da força e intensidade do dom que possuímos, assim como das experiências que tivemos, sempre é possível, através de muito empenho e da utilização de técnicas apropriadas, aperfeiçoar-se e, conseqüentemente, redescobrir-se no universo da escrita.
Ao longo de nossas vidas, a forma com que nos relacionarmos com este talento pode apresentar certa inconstância. Há casos em que se possui o dom, mas este permanece adormecido e talvez nunca venha a despertar. Outros em que se permite aflorar, mas não se cultiva, por falta de incentivo ou de confiança, e até deixa-se podar. Por fim, mas raramente, pode se apresentar uma habilidade extraordinária, com força e intensidade avassaladoras, acabando por fazer com que estes indivíduos se destaquem entre os demais.
Portanto, independente da força e intensidade do dom que possuímos, assim como das experiências que tivemos, sempre é possível, através de muito empenho e da utilização de técnicas apropriadas, aperfeiçoar-se e, conseqüentemente, redescobrir-se no universo da escrita.
segunda-feira, 1 de março de 2010
DESPERTAR
A partir do momento que soube que teria de postar textos neste blog, comecei, meio que automaticamente, a pensar sobre o que iria escrever e como iria fazê-lo. O estranho foi que quando me dei conta, estava desenvolvendo uma espécie de diálogo com um eu que não sei há quanto tempo habita em minha mente e que, até certo ponto, desconhecia. A partir deste contato com meu eu imaginário, comecei a criar meus futuros textos, redigindo–os mentalmente, com o intuito de organizar meus pensamentos, que considero um tanto quanto desconexos. Talvez isto se dê devido ao fato de estar sempre questionando o que é real e o que é imaginário, o que é loucura e o que é sanidade. Foi exatamente neste ponto que me identifiquei com “a louca da casa”. Tenho plena consciência de que não sou uma boa escritora e nem tenho pretensão de sê-la. O que sei é que as idéias e as palavras fluem em minha mente de uma forma espontânea, o que me dá muito prazer. Não tenho limites para minha imaginação, nem preocupação sobre o que vou escrever. É como se minha mente estivesse aberta para escrever sobre o que quiser , quando quiser, pois despertou para o prazer de escrever.
